quarta-feira, junho 18, 2008

Medo da Eternidade

Li esse texto há vários anos atrás, em um desses livros didáticos que a gente usa p/ estudar literatura no colegial. Nunca me esqueci dele. Outro dia falando sobre chicletes com uma amiga, me lembrei dele e fiquei com uma enorme vontade de relê-lo. Como o livro em que li isso deve estar dentro de alguma caixa em algum armário lá em casa e até eu achá-lo ia demorar muito, dei uma caçada no meu amigo google, e não é que acabei por encontrá-lo?! Como estou numa época de seca de textos, aqui vai ele para vocês.


"Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem que espécie de bala ou de bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas. Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou: - Tome cuidado para não perder, porque essa bala nunca se acaba. Dura a vida inteira. - Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa. - Não acaba nunca, e pronto. Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de história de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer, Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca a bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando-se possível o mundo impossível que eu já começara a me dar conta. Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boa. - E agora que é que eu faço? - perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver. - Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto que você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários. Perder a eternidade? Nunca. O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola. - Acabou o docinho. E agora? - Agora mastigue para sempre. Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito. Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava era aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar. Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia. - Olha só o que me aconteceu! - disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou! - Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá. Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregava dizendo que o chicle caíra da boca por acaso. Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim."

Clarice Lispector

8 comentários:

Amanda Oliveira disse...

Já tinha visto esse texto, mas pra te falar a verdade, não sou muito chegada na Clarice Lispector. Achei um porre "A paixão segundo GH". A mulher deveria ser psicóloga e não escritora.

Um beijo!

Daniele V. disse...

Oh! A eterna Clarice! Um doce, um enigma até hoje. Uma esfinge! Que escondia sentimentos valiosos traduzidos em palavras. É... eterna. Até mais que a eternidade!

Carol disse...

Ai que liiindo, ado-rei! E é da Clarice ainda por cima!
E o mais legal é que no exato momento que lia estava mascando a "eternidade" e te confesso, eu sempre a jogo fora. Eternidade cansa.

Beijoos, :*

Camilinha disse...

Excelente!!! Não conheci esse texto. Mas é exatamente isso: que dure o suficiente para ser inesquecível!!!


beijos daqui...

Natália disse...

Metaforicamente perfeito...
E alias, enqto tá docinho a gnt vai vivendo... rs

Bjus!

Line disse...

que foooofo o texto!
a visão da criança sobre eternidade, não inocente, resumida em um chiclete... Clarice sabia das coisas!!
bjo =*

A n i n h a a disse...

tinha que ser a genial Clarice *-*

Com um mísero chiclete ela conseguiu fazer um texto que me fez ficar pensando por um tempão.

"Aliviada por não carregar o peso da eternidade sobre mim."

lindo demaais
(tbm estou em escassez de textos :~)

beiijos querida

citadinokane disse...

Amanda,
Gosto de Clarice e de ti.
Beijos,
Pedro